terça-feira, 18 de abril de 2017

A Lógica, ou a Enunciação Redescoberta a Partir da Linguagem

A LÓGICA, OU A ENUNCIAÇÃO REDESCOBERTA A PARTIR DA LINGUAGEM

 Se os postulados básicos da lógica clássica são nitidamente anti-enunciativos, constata-se, entretanto, a emergência, atualmente, de problemáticas que se aproximam da enunciação: de um lado, no interior da própria lógica (através das semânticas intensionais), por outro lado na sua periferia (sob o impulso das "filosofias da linguagem ordinária") (30). 
1.3.1.Os postulados anti-enunciativos da lógica. Manifestam-se principalmente em dois domínios: — o privilégio concedido ao ponto de vista extensional (cf. a primazia da asserção sobre as outras modalidades, a atenção dada à denotação das expressões, à função re- 115 FÜCHS, C. — As problemáticas enunciativas: esboço de uma apresentação histórica e crítica. Trad. de Letícia M. Rezende. Alfa, São Paulo, 29:111-129, 1985. ferencial, à transparência da linguagem, o cálculo das expressões em termos de valores de verdade etc.) — a independência, postulada pelas teorias das linguagens formais dos três planos, da sintaxe (relações signos-signos), da semântica (relações signos-objetos) e da sintaxe (relações signos-utilizadores), e a a hierarquiasintaxe — semântica -* pragmática: cf. Carnap, Morris. Este postulado duplo da independência mútua dos três níveis e da hierarquia entre eles é recusado pelos defensores de uma abordagem enunciativa da linguagem (dita "natural" em oposição às linguagens formais): por exemplo, por Culioli e por Ducrot. 
1.3.2. As semânticas intensionais— Questionam o privilégio dado exclusivamente ao ponto de vista extensional. Seguindo Frege (31), elas estabelecem a distinção entre "sentido" e "referência" (32), e insistem na necessidade de estudar um certo número de fenômenos semânticos do ponto de vista do sentido, e não da referência; como, por exemplo, a sinonímia: "Para determinar a sinonímia entre dois nomes ou duas expressões, basta compreendê-los, enquanto para determinar se dois nomes designam o mesmo objeto, é, em geral, necessário investigar o mundo", diz Quine (33). Assim também para tratar certos casos de pressuposição e casos de "opacidade", é necessário levar em conta o sentido das expressões. Vista de um ponto de vista do lingüista, esta valorização do sentido constitui uma amostra do reconhecimento da diversidade possível das conceitualizações de um mesmo referente, em função dos sujeitos e das situações. Notar-se-á, particularmente, que o problema da não substituição de expressões com denotação idêntica em um contexto dito "opaco" pode ser tanto tratado em termos lógicos, segundo uma semântica intensional como em termos lingüístico, segundo uma semântica enunciativa (34). 
1.3.3. Os "filósofos da linguagem ordinária"— Os postulados anti-enunciativos da lógica foram denunciados pela corrente dos "filósofos da linguagem ordinária", em particular o privilégio concedido à asserção: denúncia que conduziu à teoria dos "atos de linguagem" (ou de "discurso", ou ainda "de fala"), sobretudo à noção de "performativo"; cf. Austin, Searle e Strawson. Nas pistas abertas por essa corrente, desenvolveram-se as problemáticas chamadas de "pragmática lingüística", que recobrem parcialmente as problemáticas das "fun- ções da linguagem", as da enunciação lingüística (no sentido estrito do termo, quer dizer análise de categorias como a dêixis ou as modalidades) e as da argumentação.

Fonte: ALFA- Revista de Linguística (Pág. 115 e 116)

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