Se os postulados básicos da lógica clássica são nitidamente anti-enunciativos,
constata-se, entretanto, a emergência, atualmente, de problemáticas que se aproximam
da enunciação: de um lado, no interior da própria lógica (através das semânticas intensionais),
por outro lado na sua periferia (sob o impulso das "filosofias da linguagem
ordinária") (30).
1.3.1.Os postulados anti-enunciativos da lógica. Manifestam-se principalmente em
dois domínios:
— o privilégio concedido ao ponto de vista extensional (cf. a primazia da asserção
sobre as outras modalidades, a atenção dada à denotação das expressões, à função re-
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FÜCHS, C. — As problemáticas enunciativas: esboço de uma apresentação histórica e crítica. Trad. de
Letícia M. Rezende. Alfa, São Paulo, 29:111-129, 1985.
ferencial, à transparência da linguagem, o cálculo das expressões em termos de valores
de verdade etc.)
— a independência, postulada pelas teorias das linguagens formais dos três planos,
da sintaxe (relações signos-signos), da semântica (relações signos-objetos) e da sintaxe
(relações signos-utilizadores), e a a hierarquiasintaxe — semântica -* pragmática: cf. Carnap,
Morris. Este postulado duplo da independência mútua dos três níveis e da hierarquia
entre eles é recusado pelos defensores de uma abordagem enunciativa da linguagem
(dita "natural" em oposição às linguagens formais): por exemplo, por Culioli e
por Ducrot.
1.3.2. As semânticas intensionais— Questionam o privilégio dado exclusivamente
ao ponto de vista extensional. Seguindo Frege (31), elas estabelecem a distinção entre
"sentido" e "referência" (32), e insistem na necessidade de estudar um certo número
de fenômenos semânticos do ponto de vista do sentido, e não da referência; como, por
exemplo, a sinonímia: "Para determinar a sinonímia entre dois nomes ou duas expressões,
basta compreendê-los, enquanto para determinar se dois nomes designam o mesmo
objeto, é, em geral, necessário investigar o mundo", diz Quine (33). Assim também
para tratar certos casos de pressuposição e casos de "opacidade", é necessário levar em
conta o sentido das expressões.
Vista de um ponto de vista do lingüista, esta valorização do sentido constitui uma
amostra do reconhecimento da diversidade possível das conceitualizações de um mesmo
referente, em função dos sujeitos e das situações. Notar-se-á, particularmente, que
o problema da não substituição de expressões com denotação idêntica em um contexto
dito "opaco" pode ser tanto tratado em termos lógicos, segundo uma semântica intensional
como em termos lingüístico, segundo uma semântica enunciativa (34).
1.3.3. Os "filósofos da linguagem ordinária"— Os postulados anti-enunciativos da
lógica foram denunciados pela corrente dos "filósofos da linguagem ordinária", em
particular o privilégio concedido à asserção: denúncia que conduziu à teoria dos "atos
de linguagem" (ou de "discurso", ou ainda "de fala"), sobretudo à noção de "performativo";
cf. Austin, Searle e Strawson.
Nas pistas abertas por essa corrente, desenvolveram-se as problemáticas chamadas
de "pragmática lingüística", que recobrem parcialmente as problemáticas das "fun-
ções da linguagem", as da enunciação lingüística (no sentido estrito do termo, quer dizer
análise de categorias como a dêixis ou as modalidades) e as da argumentação.
Fonte: ALFA- Revista de Linguística (Pág. 115 e 116)
Está muito bem explicado e feito colega, parabéns.
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